Incêndios


Grandes filmes de 2011

 

Incêndios

 

 

Uma das cenas mais impressionantes da história cinematográfica do ano que está encerrando não vem de Lars Von Trier em Melancolia, e nem do filme que dividiu a crítica, A Árvore da Vida, de Terrence Malick, e sim quando o guarda da prisão de uma região do sul do Líbano, em meio a guerra civil, cristãos e muçulmanos, palestinos, leva mais um conteúdo para ser jogado (que se repete, como rotina) nas águas límpidas em meio ao deserto árido. Num último desespero, uma pessoa roga, pedindo para o guarda poupar desesperadamente aquele conteúdo.

Impressionante, não vou contar que é o detalhe mais assombroso do filme. O resto, aqui vai o conteúdo de Veja e Bravo à respeito do grande filme.

Os incêndios, de Denis Villenauve, que com a sobriedade da direção e o talento da atriz belga Lubna Azabal dão consistência ao drama canadense, indicado ao Oscar de 2011.

As cidades do Líbano onde transcorrem os acontecimentos são fictícias.

 

A guerra intíma: Em Incêndios, uma personagem concentra todo o tumulto pelo qual o Líbano passou nas últimas quatro décadas.

 

É um enigma o testamento de Nawal, a mãe dos gêmeos Jeanne e Simon (Melissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette). Ela pede para ser enterrada com o rosto para baixo, de costas para o mundo, e ordena que eles entreguem duas cartas: uma ao pai e outra ao irmão. Os gêmeos julgavam que o pai estivesse há muito morto no Líbano, de onde veio sua mãe; e nunca souberam ter um irmão. Simon, furioso, quer ignorar essa excentricidade final de sua mãe tão complicada. Mas Jeanne decide deixar o Canadá rumo ao Líbano à procura desse pai e desse irmão sobre os quais ela não tem nem pista. E assim, em um jogo espetacular entre presente e passado, Incêndios (Incendies, Canadá/França, 2010), esta adaptação do diretor canadense Denis Villeneuve para a peça do libanês Wajdi Mouawad, que está em cartaz desde sexta-feira (e concorre ao Oscar de filme estrangeiro), começa a deslindar a tortuosa trajetória de Nawal. A qual começa em um vilarejo no sul do Líbano, onde ela engravida de um rapaz (que seus irmãos matam) e dá à luz um menino que é despachado para um orfanato. Esse filho ausente influenciará todas as decisões cruciais de Nawal ( a belga Lubna Azabal, em uma performance poderosa). Para procura-lo, ela volta em 1975 ao sul arrasado, em pleno estouro da guerra civil, ora escondendo ser cristã, ora valendo-se da religião para salvar-se. Por causa dele, ela se passa para o lado dos palestinos: ver as milícias cristãs assassinando uma criança muçulmana que ela tirou de um ônibus em chamas é demais para uma mãe que busca seu filho. Agarrando-se à idéia dele, ela resiste a anos de tortura como presa política. E é uma revelação assombrosa sobre ele ( e ponha-se assombrosa nisso) que a levará à morte.

É árduo o caminho que Jeanne e depois também Simon percorrem, cruzando o Líbano até os lugares mais remotos – e arriscados. Nawal poderia ter contado a eles sua história; mas só tendo de refazê-la, e vendo de perto o país intensamente complexo no qual nasceram, os gêmeos poderiam de fato compreendê-la. Incêndios é forte no melodrama e nas coincidências romanescas, mas não forçado: é útil que se entenda que tamanha concentração de reviravoltas na vida de uma única personagem se destina a torná-la uma alegoria das marchas e contra-marchas em uma vida maior, a do Líbano. Mas há aqui também um drama íntimo de grande beleza: o dos filhos que, com sofrimento, espanto e admiração, descobrem que seus pais já existiam antes de eles nascerem. 





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