Três Anúncios Para Um Crime


Três Anúncios para um Crime

Faz cerca de um ano que a jovem Angela foi estuprada e assassinada. De tão transtornada, sua mãe, Mildred Hayes (Frances McDormand), atravessou para a outra margem: compactou sua dor em um ódio metódico, regular, ininterrupto. Mildred se manifesta instalando três outdoors numa estradinha, com uma frase simples em cada um deles. O primeiro outdoor descreve com brevidade horripilante a morte de Angela. O seguinte lembra que nenhum suspeito foi detido ainda. O último exige do chefe de polícia, Bill Willoughby (Woody Harrelson), uma atitude. Mildred arma a bomba, e o policial Dixon (Sam Rockwell), ignorante e racista, acende o pavio, ao levar a iniciativa dela para o lado pessoal. Dia após dia, as ondas de choque se expandem por Ebbing, um lugarejo daquelas profundezas dos Estados Unidos que fervilham de ressentimento racial, econômico e social. Willoughby, um sujeito decente, tenta explicar a Mildred as limitações da lei (“Não, não podemos colher o DNA de todos os homens acima de 8 anos”), assim como as da pequena força que comanda: “Se eu conseguisse recrutar três policiais que não fossem racistas, eles certamente seriam homofóbicos”, diz, com um sorriso cansado, em uma cena memorável de Três Anúncios para um Crime.(Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, Estados Unidos ,2017),com sete indicações ao Oscar. Três atores estão concorrendo ao prêmio – e é pena que não haja vagas também para o restante do elenco. (Não há explicação racional, contudo, para o diretor Martin McDonagh ter ficado de fora.)

Três Anúncios para um Crime tem uma dívida para com a obra dos irmãos Joel e Ethan Coen, e em particular com Fargo, indicado ao Oscar em 1997, na maneira como trata das coisas horríveis da vida pelo viés do humor – mas um humor em carne viva, que as vezes o inglês McDonagh faz submergir em momentos de emoção intensa, e então aflorar de novo. Tem, inclusive, a mesma protagonista: Frances McDormand, que foi oscarizada então e quase com certeza o será de novo por este desempenho lacerante. Frances, uma atriz cuja única vaidade é a disposição para se despir de toda vaidade, anda pelo filme metida num macacão velho, com o cabelo cortado a navalha, o rosto crispado , o queixo á frente em sinal de batalha .Com sua  ira justa , Mildred comete algumas injustiças, várias injustiças e pelo menos um ato de ferocidade indesculpável. Mais que tudo, indigna Ebbing  com sua cobranças a Willoughby, que passa por um momento dificílimo.

Se a força do filme está em Frances, sua grandeza vem do personagem de Harrelson. O chefe de polícia  Willoughby é, sim, um daqueles caipiras rematados que o ator costuma encarnar, de fala colorida e tolerante para com a truculência alheia. Mas é também um policial e um homem de consciência , e anda  preocupado com o rescaldo desse drama. Valendo-se de um recurso em geral piegas, mas que aqui atinge grande efeito, McDonagh ajuda Willoughby a se fazer ouvir com recados de compaixão para Dixon, e de calma para Mildred. As circunstâncias fazem os recados calar fundo, e é claro o desejo do diretor de que não só Dixon e Mildred  os recebam. Três Anúncios...ostenta sua ambientação na América interiorana, branca, podre, conservadora, religiosa e portadora de armas – na percepção geral, a que elegeu Donald Trump – para expor como a vida nela pode também ser esquálida e infrutífera, e carente de algum senso de justiça. Ouvir as pessoas que se encontram na margem oposta das convicções, porém, é um milagre está ao alcance humano – e o único capaz de fazer com que estereótipos voltem a ser pessoas. É com um desses milagres, pequeno e tímido, mas precioso, que Três Anúncios  para um crime se encerra: depois de tanta corrosão, alguma compreensão.