A 100 Passos de um Sonho


A 100 Passos De Um Sonho

Ano de Lançamento: 2014

Gênero: Comédia

Duração: 122 minutos

Direção: Lasse Hallstrom

Café com Filme

 

A 100 Passos De Um Sonho é repleto de sabores que explodem no paladar. Um triunfo estimulante sobre exílio, cheio de paixão e emoção, com manjeronas e madras, é a retratação de dois mundos colidindo na motivação de um rapaz para encontrar o conforto do lar em cada panela, onde quer que ele possa estar.

A 100 Passos de um sonho se passa na França, onde a respeitada e autoritária chef gastronômica Mallory (Helen Mirren) está cada vez mais preocupada com um restaurante indiano que abriu ao lado de seu estabelecimento, e pode acabar roubando seus clientes. Ela trava uma verdadeira guerra contra o vizinho, mas aos poucos conhece o filho do seu adversário, um garoto com verdadeiro talento para culinária. Aos poucos, os dois tornam-se amigos, e Mallory passa a guia-lo pelos conhecimentos da refinada gastronomia francesa, encorajando-o a abrir seu próprio restarante.

Estrangeiro muda para uma pequena cidade no sul da França e seus pratos exóticos começam a fazer sucesso, alterando a dinâmica do pequeno vilarejo e incomodando a elite local. Para o diretor Lasse Hallström, aparentemente, contar essa história apenas uma vez não é suficiente. "Chocolate" não bastou, agora ele dirige "A 100 Passos de um Sonho".

A trama é basicamente a mesma do filme estrelado por Juliette Binoche, com algumas diferenças. A maior delas é que aqui o diretor, trabalhando com roteiro assinado por Steven Knight, adaptado do romance de Richard C. Morais (no Brasil chamado de "A Viagem de 100 passos"), quer falar do caldeirão cultural do mundo globalizado.

Mas é aí que o crème brûllée- para usar uma metáfora culinária rasteira -, passa do ponto, pois as soluções que o filme encontra para a harmonia numa França contaminada por movimentos de extrema direita e xenofóbicos são para lá de ingênuas. Há também tumultos políticos na Índia, descritos como "uma eleição ou outra".

 

Não que algo disso seja o tema do filme, pelo contrário. As questões vêm à tona apenas em um momento, e é como se o diretor pedisse desculpa por falar disso—sem nunca, é claro, nomear a questão. Assim, "A 100 Passos de um Sonho" se limita em ser quase duas horas de programa culinário, sem dar as receitas. Hallström se contenta com as obviedades das metáforas culinárias e o poder transcendental da comida unindo culturas.

É de se lamentar, no entanto, que o filme se contente com isso, pois parte de bons personagens e atores. Ao centro, como narrador e protagonista, está o jovem Hassam (Manish Dayal), cuja família foge da Índia e se instala na Europa, meio que por acaso nesse pequeno vilarejo, cujo único restaurante tem uma estrela do conceituado guia Michelin (a ponto de atrair políticos importantes) e é dirigido com pulso firme por Madame Mallory (Helen Mirren).

Hassam é filho do teimoso Papa Kadam (Om Puri), que abre um espalhafatoso restaurante indiano bem em frente ao estabelecimento da francesa. Ele conta com o talento culinário de seu filho e a ajuda dos outros três para tocar o lugar, mas encontra na vizinha uma inimiga e sabotadora.

Então, o filme se contenta com clichês sobre personagens: franceses são esnobes, as porções são mínimas; indianos, alegres e cozinham abundantemente etc. Além disso, há também o envolvimento amoroso de Hassam com Margueritte (Charlotte Le Bom), a sous chef do restaurante francês que aspira à posição principal dentro da cozinha ; mas, no filme, as posições centrais parecem caber apenas aos homens.

Ao final, não é de se espantar encontrar os nomes de Oprah Winfrey e Steven Spielberg como produtores do filme. "A 100 Passos de um Sonho" é exatamente o tipo de história que a apresentadora gosta- de superação com uma profundidade falsa - e Spielberg providencia o lado "diversão para toda a família". E aí estão as raízes de alguns dos maiores problemas nesse filme, que fazem dele um passatempo mediano e previsível.

 

Crítica: A 100 Passos De Um Sonho

A culinária como metáfora ao cinema. E não só ao Cinema, mas a qualquer arte: Passou do ponto e o caldo engrossa pra nunca mais voltar atrás. É puro tempero, pura experimentação a partir de um paladar refinado, mesmo a favor de quem não sabe distinguir o bom do ruim, um queijo assim, um queijo assado; um quadro sagrado de um quadro estragado. Não há remendos ou curativos, isso é arte médica. Seja na panela ou numa câmera, a metalinguagem entre duas ou mais formas de expressão se faz valer na formação de um manifesto emocional ou cultural, na compatibilidade entre visões de mundo que se chocam e viram uma só. Lindo, tudo na teoria é lindo, mas em A 100 Passos de Um Sonho a culinária é mero subtexto e coerência extravisual de duas culturas (indiana e britânica), usando uma combinação de ingredientes como contraponto realmente fraco a pré-conceitos sociais, ou seja: uma mera desculpa para fazer o filme parecer comida fina, quando é só arroz e feijão requentado.

A história do filme. Uma história de superação. Após perder a matriarca num incêndio doméstico, uma família liderada pelo pai e pelos sonhos deste e do filho mais velho se mudam de continente, em busca do sucesso e acolhimento europeu, além das espetaculares cores do oeste regional que se refletem na matéria-prima do que a família sabe fazer: cozinhar. Acabam atraindo a atenção da Madame Mallory (Helen Mirren), que como numa fábula de Pavel Bazhov não tenta lhes passar para trás e garantir a soberania de seu restaurante tradicional (como diz o slogan do pôster), mas quase os acolhe, com amor e admiração conquistados pouco a pouco pela própria família Kadam, numa excessiva duração do filme. Nada mais convencional, essa versão de Ratatouille no mundo real. Só não vale perguntar quem seriam os ratos se a visão do filme não fosse fabulesca…

O Cinema como metáfora à culinária. Como captar com a íris de uma câmera o frescor (e o vigor, o brio) do ambiente e mixar, com a força visual de um bólido errante na tela, a infinita abundância de cores dos sítios franceses e âmbitos urbanos de Paris, ao que é mostrado no prato, em todo seu colorido que vem destes lugares? A fotografia do filme, resumindo, é espetacular. Uma cena, em especial, quando um dos casais nessa história dividida entre realização pessoal e sucesso comercial, caminham juntos pelos prados cintilantes durante a aurora crepuscular, é absolutamente exemplar a beleza que surge em nossos olhos, e debulha em prol de qualquer conceito sensorial a favor da imagem, degustada pelos nossos olhos. Quanto aos ouvidos, a trilha-sonora cumpre seu papel primordial e nada destacável a quem não se impressiona fácil, aqui, regida pelo famoso A. R. Rahman, o maestro da boa trilha de “Quem Quem Ser Um Milionário?”, que sabe a hora certa para pincelar no prato seus timbres extra-diegéticos, em certos momentos-chave do filme. Ainda assim, o choque musical entre ocidente e oriente em As Aventuras de Pi e Viagem a Darjeeling, principalmente o segundo, é apenas ‘‘mais completo”, para não usar de superlativos.

Mas aonde está a alma do filme?, é a pergunta. A 100 Passos de Um Sonho é motivacional como deseja ser, ou só um filme para assistir antes de dormir e ter bons sonhos? Os matizes da culinária apresentada, e sem uma introdução adequada ao espectador que gostaria de conhecer mais do que rola nos comes e bebes da Índia, fazem relevo ou oposição ao brilho dessa história de esperança e sonho em família? A resposta é não, eles não fazem, e o filme nem chega perto de fazer, pura e simplesmente por não tentar não se ater ao lugar comum dos ‘‘filmes-estômago”. Um subgênero que já nasceu saturado esse, das iguarias e petiscos, que encontra na sua essência a razão para se colocar no cinema, pois assistir a um filme é afinal saborear uma iguaria com os cinco sentidos, mas entendê-lo é comer de olhos vendados.

Jantar da AMEN (Associação Médica do Noroeste do Estado).

Local: Chopp Ijuhy

Dia: 01/10/2015

Palestrantes: Drº Regis de Souza, Drº Gilberto P. Gomes, Drº Ari O. Tech                                                                       

Discussão:

Obs.: Conclusão da turma da AMEN após o filme: uma delícia, um deleite, visual deslumbrante com discussão sobre xenofobia (discriminação, medo de novas concorrências vindas de outros continentes). Um sucesso, com mais de 30 médicos, degustando, o chef André ao vivo e Madame Mallory no filme.





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