Gravidade-Ao Infinito E Além


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 Ao Infinito E Além

Matt Kowalski, veterano de dezenas de missões espaciais, e a novata Ryan Stone trabalham do lado de fora do ônibus espacial Explorer, assistidos por um terceiro astronauta. Deste só se vê a figura, ao longe, enquanto ele rodopia feliz. Também Kowalski (George Clooney) se diverte, dando voltas e voltas com o jet pack às suas costas. Já Stone (Sandra Bullock) está nauseada, irritada e sobressaltada. Dentro de instantes, estará em pânico: do comando de terra chega o aviso de que um satélite russo se chocou com outros, criando uma onda de destroços que vem vindo em grande velocidade na direção deles; é urgente procurar abrigo no interior do ônibus espacial. Mas a tempestade de estilhaços é muito mais rápida. Em segundos ela deixa o Explorer, em pedaços, o terceiro astronauta e a tripulação, mortos, e Kowalski e Stone, à deriva, orbitando sem pouso nem âncora no maior de todos os vazios enquanto tentam agarrar-se um ao outro. (O cataclismo não é mera invencionice: a onda de destroços que vai se multiplicando é um cenário hipotético postulado em 1978 pelo astrônomo Donald J. Kessler.) Até esse ponto de Gravidade (Gravity, Estados Unidos/Inglaterra, 2013), terão transcorrido pelo menos uns doze minutos sem que a câmera do cineasta mexicano Alfonso Cuarón e do diretor de fotografia Emanuel “Chivo” Lubezki tenha efetuado um único corte. Ela terá gravitado ao redor dos astronautas ou executado afastamentos e aproximações impressionantes, e terá trocado de ponto de vista entre o narrador e cada um dos protagonistas diversas vezes, sempre com elegância e clareza infalível. Terá, enfim,realizado um efeito equivalente ao do escritor que ao mesmo tempo narra e descreve, dá falas aos seus personagens e reproduz seus pensamentos,sem usar um ponto final sequer para indicar essas operações de natureza tão distinta.

 Trata-se de uma proeza que exigiu  de Cuarón e do amigo Chico a criação de tecnologias nunca imaginadas antes: o recurso tradicional para imitar a gravidade zero- colocar os autores num avião que sobe e mergulha – tornaria inviáveis as tomadas demoradas que ambos haviam planejado.Mas é ,sobretudo,uma façanha narrativa:combinando computação gráfica,3D,som surround, câmeras e sistemas de iluminação pré-programavéis, a habilidade dos titereiros de Cavalo De Guerra e a força dos robôs usados nas linhas de montagem de automóveis- mais persistência notável de sua atriz principal -,Cuarón lança o espectador numa das mais imersivas experiências cinematográficas já concebidas:uma jornada em que ação e reação se encadeiam sem pausa , num ambiente de verossimilhança fotográfica o e aural que mesmo hoje, quando o cinema parece poder tudo, é capaz de causar um assombro cujo único termo de referência   seria aquele que Stanley Kubrick provocou 45 anos atrás com 2001 –Um Odisséia No Espaço.(Faça-se só uma ressalva :nem o espaço tem para a platéia de hoje o mistério que guardava para o publico de 1968,nem as ambições metafísicas de Cuarón são grandiosas como as de Kubrick.)

Em filme tão diversos quanto A Princesinha   e E Sua Mãe Também, ou Harry Potter e o Prisioneiro De Azkaban e Filhos Da Esperança,Cuarón se tem proposto um cinema em que a imagem não é só um meio de contar a história : ela é, em grande medida , a própria história e a finalidade de contá-la. Na  sua  busca proporcionar ao espectador  essa  sensação intangível mas definitiva de estar sendo mergulhado em outro mundo lado a lado com personagens, Cuarón foi se estabelecendo como o mestre do plano longo- minutos e minutos em que a câmera une sozinha todas as etapas da ação , sem cortes.Aqui, ele sabe ter se superado .Mas não sabe em quanto. “Juro que não sei quando dura a seqüência  de  abertura. Nem eu nem o Chivo. É questão de honra para nós”,disse o diretor( leia abaixo sua explicação para algumas charadas técnicas solucionadas na produção).

Seja qual for  marca do cronômetro em que vem esse primeiro corte, é a partir dela que qualquer informação a mais  sobre o destino dos astronautas começa a trabalhar contra a  tração que o filme exerce sobre a platéia. Imagine-se uma espécie de boliche infinito, em que a bola toca alguns dos pinos, que tocam outros e os deslocam para lá, que tocam outros mais e os empurram para cá – e assim por diante: Kowalski e Stone estão desesperados para achar um porto (e, sim, há portos possíveis em órbita da Terra), mas cada gesto seu enseja uma conseqüência imprevista e os leva num rumo inesperado. Essa qualidade cinética de Gravidade é um espetáculo sensorial e lógico (e outras vezes poético, como no detalhe da lágrima que se desprende dos olhos de Stone e flutua ao redor dela) que cada um deve experimentar nos seus próprios termos, sem ser atrapalhado por amigos que falam demais ou sites que contam tudo.

Diz Cuarón que, se a platéia quiser tirar do seu filme simplesmente essa diversão, a da vertigem, ele já vai ficar bem feliz. Mas ficará ainda mais satisfeito se ela embarcar também na viagem metafórica de Ryan Stone, que Sandra Bullock interpreta com garra soberba. Sandra, diz ele, compreendeu de imediato que havia um tema simples no centro do projeto tão arrojado tecnicamente: a adversidade. Em particular, como o desejo não só de sobreviver, mas de realmente viver, costuma ganhar urgência  justamente no momento em que a vida se torna impossível. Daí a profusão de imagens que evocam tanto  cordões umbilicais e ambientes de intimidade uterina como seu oposto – a violência de ser arrancado deles e lançado no nada. Uma dica, porém: use a imaginação enquanto estiver vendo a cena final. Em apenas três minutos, ela põe em relevo toda uma outra interpretação possível para o que se passou nos 87 minutos anteriores. È mais sutil, e menos antológico, que a cena  de 2001 em que o osso empunhado pelo macaco na pré-história vira uma  nave espacial no futuro. Mas  o espírito, esse é o mesmo: como é extra-ordinário que a vida que tem inteligência para querer viajar até as  estrelas tenha partido, um dia, de um grão de poeira perdida entre elas.

 

 





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