O Lado Bom Da Vida


 

 

 

Clichê Renovado

Em O Lado da Vida, a receptividade e o compromisso dos atores fazem vibrar a história dos desajustados que nasceram um para o outro.

 

                      Diagnostico como bipolar após uma traumática descoberta de traição conjugal, Pat Solitano, mesmo ao fim de oito meses numa instituição psiquiátrica, tem uma energia maníaca. Na interpretação calibrada e sincera de Bradley Cooper, é como se as reservas que as pessoas sãs empregam em atividades salutares – manter-se receptivas aos relacionamentos, pensar racionalmente, realizar tarefas produtivas ou prazerosas – não encontrassem, em Pat, nenhuma forma definida na qual se manifestar: ele gera calor, mas este não se traduz em movimento. A ideia fixa de Pat é refazer seu casamento, muito embora sua ex-mulher tenha obtido contra ele uma ordem judicial de afastamento. De volta à casa dos pais, ele tem crises de raiva, bate a porta do quarto, acorda o pai e a mãe de madrugada com queixas absurdas. Está tão enredado nos pensamos que ficam dando voltas em sua cabeça, enfim, que não enxerga o óbvio mesmo quando este se pôe debaixo do seu nariz: se há alguém capaz de compreender o que ele está passando, é Tiffany, a jovem viúva machucada e indignada que ele conhece em um jantar. “Óbvio’’ no caso de O Lado Bom da Vida ( Silver Linings Playbook, Estados Unidos, 2012), desde sexta-feira em cartaz no país, não vem como sinônimode ‘’banal’’ – menos graças ao enredo, adaptado do romance homônimo do americano Matthew Quick (tradução de Alexandre Raposo; Intréseca; 256paginas; 24,90 reais ou 14,90 na versão digital), e mais em razão do talento do DIRETOR David O. Russell para fazer escolhas felicíssimas de elenco e então tirar de seus atores interpretações vibrantes e notavelmente comprometidas.

                         É previsível que, a partir do momento em que Pat conhece Tiffany, o filme passe a se ocupar da dança entre os dois (literal, alias: o desfecho se dá num concurso de dança de salão); o que é comum nesse tipo de historia é a vivacidade e a reciprocidade com que Cooper e a maravilhosa Jennifer Lawrence se engajam nessa dança, como se cada passo que está por vir fosse inesperado também para eles próprios. Essas trajetórias de aproximação entre indivíduos, e a potencial segunda chance a que elas conduzem, são a matéria-prima predileta de David O. Russell nesta fase de sua carreira iniciada com O Vendedor, há dois anos. Antes notoriamente confrontativo (pegou-se de sopapos com George Clooney nas filmagens de Três Reis, e no set de Huckabees – A vida É uma Comedia perpetrou contra Lily Tomlin um ataque verbal que ficou célebre pela virulência), Russell renasceu como um cineasta agregador, que se impõem realçar tanto quanto possível os desempenhos.

Em O Vencedor, dessa forma, Russell rendeu um Oscar para Christian Bale e outro para Melissa Leo. Em Lado Bom , concorrem , além de Cooper e Jennifer , a australiana Jacki Weaver , que faz a mãe de Pat, e o ator revelação do filme : Robert De Niro . Desde 1995 , quando fez Cassino com Martin Scorsese, ninguém o via trabalhar - só comparecer ao emprego. E , no entanto, De Niro aqui está presente em corpo e espirito em cada cena que tem no papel do pai  de Pat, reagindo aos outros atores de momento, sem rede de segurança nem muito menos sinal daquela cara de tédio que vinha exibindo nos últimos anos. Constatar que há alguém capaz de um feito dessa magnitude é , de fato , uma daquelas coisas que têm de ser elencadas no lado bom da vida .

 

Filme exibido e discutido pelo palestrante Dr. Ari Oscar Tech, na reunião trimestral da AMEN, em Maio de 2013!

 





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