A Invençao de Hugo Cabret


 

Não tinha me entusiasmado ainda com a modernidade do 3D. Mas quando Martin Scorsese já previa seu filme nessa nova tecnologia, coloquei o filme para rodar. Maravilhoso! Doce, vai fundo em toda a infância, juventude, lembranças e por aí a fora. Deveria ser obrigatório assisti-lo, por qualquer pessoa, de todas as idades. Fico chateado, que um filme de tantos predicados e de indicações ao Oscar (ver comentário de Veja), só tenha faturado prêmios menores, como direção de arte, fotografia, edição , mixagem de som e efeitos visuais (os últimos dois são os pontos altos). Daí que o Oscar principal vai para O Artista (não desmerecendo, tem muitos méritos, mudo,  preto e branco; é muita coragem). É um filme que vai cair no esquecimento. Hugo Cabret é uma das mais belas (se não a mais bela) homenagem já prestada ao cinema. A saudade me remete a um dos grandes pioneiros do cinema,a memória de  Georges Méliès (Viagem a Lua, 1902). Roteiro maravilhoso. Não vou comentar o filme, os personagens, o inspetor da estação (Sacha Baron Cohen), o próprio tio Georges Méliès (na pele de Ben Kingsley), Monsier Labrisse (Christopher Lee), a florista da estação do metrô, Linette, todos bem trabalhados, únicos, insuperáveis, impecáveis. Sou fã de O Cabo do Medo e a estrela de Scorsese brilha cada vez mais. Para ver e rever inúmeras vezes, de preferência em 3D, essa fábula sobre o sonho e a ilusão.

Comentário da Revista Veja:

O público nem se habituara a cenas simplicíssimas como a de uma locomotiva chegando à estação (era comum que a platéia saísse correndo da sala, temendo ser atropelada), e o francês Georges Méliès já se dera conta de que o aparato apresentado naquele ano – 1895 – pelos irmãos Lumière poderia se prestar a um uso bem mais interessante: contar histórias. Mágico de profissão, ele tentou comprar dos Lumière um cinematógrafo, mas eles se recusaram a vendê-lo. A invenção não tinha futuro, e eles não seriam poltrões de lucrar com a ingenuidade alheia, alegaram. Méliès adquiriu uma tecnologia rival e foi aprender a operar a câmera. No erra e acerta dos autodidatas, descobriu que interromper a filmagem, rearranjar a cena que estava em quadro e então voltar a rodar rendia impressões maravilhosas: personagens sumiam ou apareciam, o cenário se transformava. Estava inventado o stop-motion, que até o advento da computação gráfica foi a base de todos os efeitos especiais no cinema. Méliès lançou seu primeiro filmete em 1896. Lançaria cerca de outros 500 até falir, depois de uma lenta queda na obscuridade, atropelado pelos avanços narrativos de gênios para os quais ele fora a inspiração primeira, como D.W.Griffith e Chaplin. Mas durante muito tempo suas criações extravagantes, repletas de cores (pintadas a mão na película), personagens de fantasia e cenários exóticos, venderam milhões de ingressos. O dado demora a se revelar, mas o pai do cinema como território de mundos imaginários – e dono do primeiro estúdio da Europa – é central em A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, Estados Unidos, 2011), de Martin Scorsese, que estréia nesta sexta-feira com onze indicações ao Oscar.

Baseado no romance homônimo de ficção histórica do americano Brian Selznick, de 2007, no princípio o filme se ocupa quase que só de Hugo Cabret (Asa Butterfield) que lhe dá nome – um órfão que, nos anos 30, mora clandestinamente numa estação de trem parisiense, cujos grandes relógios acerta e onde furta para sobreviver, sempre fugindo do inspetor que nunca o alcança porque o aparelho que usa na perna o impede de correr (Sacha Baron Cohen, o Borat). Certo dia, Hugo é pego por quem menos espera: o velhinho que toca uma loja de brinquedos na estação, e que se apodera do maior tesouro de Hugo – um caderno herdado de seu pai relojoeiro (Jude Law), com as instruções para reparar um antigo autômato em forma de menino. O velho, chamado Georges (Bem Kingsley), empalidece ao ver os esboços contidos no caderno: eles dizem respeito a um passado do qual ele nunca fala, nem mesmo com sua filha adotiva Isabelle (Chloe Grace Moretz).

O velho Georges, claro, é Méliès – mas um Méliès reclusivo e amargurado, tão ferido pelo esquecimento em que caiu que até mencionar quem foi um dia lhe seria insuportável. Scorsese, que aos 69 anos inevitavelmente está se aproximando da etapa final de sua carreira, se compadece do homem e se irmana com o cineasta: Griffith, Orson Welles e muitos outros grandes diretores terminaram sob o castigo de não mais conseguir crédito para filmar (Méliès é, porém, um dos casos mais tristes: morreu na penúria, em 1938, aos 76 anos, tendo vendido a maior parte de seus negativos como sucata). A esperança de Scorsese é que, da mesma forma que ele na infância se maravilhou com as imagens de Viagem à Lua, de 1902, e outras criações de Méliès, sempre haja entre as novas gerações quem queira se encantar com a beleza criada no passado, esquecida ou não. As crianças Hugo e Isabelle representam essa possibilidade de redescoberta – e é às crianças em geral que Hugo Cabret se destina. Tão forte é o desejo de Scorsese de falar a elas que, por vezes, seu filme freia para que se faça uma ou outra exposição didática. Nada, porém, que tolde o deleite de ver projetadas na tela grande (oportunidade raríssima hoje em dia) as imagens fantásticas com que Méliès inaugurou uma era – a dos séculos do cinema.  





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