O Abrigo (Take Shelter)


  • O Abrigo (Take Shelter)

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Filmes sobre distúrbios mentais, alterações da personalidade, psicoses, sempre são de difícil compreensão e “digestão”, restritos ao grande público. Alguns, verdadeiras obras de arte, vencedores de grandes festivais (John Huston, Freud--- Além da Alma, e Um Método Perigoso, de David Cronenberg, etc.) estão nessa condição. Começamos a assisti-lo sem muita convicção. Que nada. Pássaros caindo na terra, cachorro agredindo o seu dono, a esposa querendo matar o marido, trovões, vendavais, tornados, chuva grossa e amarelada, como óleo de motor caindo do céu, são fruto da imaginação ou antecipação profética de algo que se tornará verdadeiro?

Realidade da mente perturbada (?) de Curtis (excelente desempenho de Michael Shannon, seu rosto é muito expressivo) resultado da combinação e herança de sua mãe que está internada num manicômio.

A mente do espectador se confunde mais ainda quando o psiquiatra de sua escolha lhe diz: “Você deve ser internado¨, e ele retruca,¨ como me separar da minha família?”. Uma pessoa assim é perturbada mentalmente?

Para se resguardar do apocalipse eminente (?) ele constrói um abrigo subterrâneo no pátio da casa. O desempenho da sua esposa, Samanta, é maravilhoso, comedido, enérgico, quando necessário, sem jamais deixar o marido a mercê da sorte;por exemplo, mandando o marido abrir a porta do abrigo, para se curar (?) das suas psicoses esquizofrênicas  paranóides e ver que o mundo lá fora é normal, lindo, céu limpo, sem pássaros mortos, sem tornados.

A cena final do filme é simplesmente uma das mais lindas do cinema, ficando o espectador ainda mais confuso e maravilhado, podendo abrir discussões e interpretações por vários ângulos.Surpresa.

A direção de Jeff Nichols é primorosa, simplesmente arrebatadora, um mestre da ambigüidade e múltiplas interpretações.

Um prato cheio para psicólogos, psiquiatras e discussões em cine clubes, palestras, etc.

Vale a pena conferir.

 

Comentário da revista Veja:

Nuvens cor de chumbo rolam no céu. Pássaros voam em formações frenéticas e então caem mortos. Uma chuva grossa e amarelada como óleo de motor começa a desabar: Curtis, um operário de construção pesada no Meio-Oeste, não sabe dizer se está apenas imaginando essas cenas ou vendo-as de fato, em antecipação profética de algo que se tornará real. O tormento que elas provocam, porém, é verdadeiro. Curtis passa a ser sobressaltado por esses e outros prenúncios de dia, acordado, e de noite, enquanto dorme: prediz, ou alucina, que o cão da família vai atacá-lo com selvageria; que estranhos tentarão entrar em casa; que sua mulher vai virar-se em ódio contra ele. “Você tem uma boa vida”, diz um amigo a Curtis, referindo-se não às posses, que são modestas, mas à paz essencial da existência – casa, emprego, mulher e filha que o amam. Essas são as duas certezas que devoram Curtis: a de que ele tem tudo que deseja e de que necessita – e a de que tudo vai perder. Se a perda se dará num cataclismo meteorológico, entretanto, ou em razão de sua loucura, é a dúvida que se soma à angústia de Curtis e a multiplica. Em O Abrigo (Take Shelter, Estados Unidos, 2011, Sony/Fox), um dos mais excepcionais filmes americanos recentes – e que aqui sai diretamente em DVD, sem passar pelos cinemas -, fundem-se de maneiras indistinguíveis o sobrenatural, o psíquico e o econômico (sinais da crise que vem devastando a classe média americana desde 2008 estão por toda parte, em par e passo com os portentos do protagonista). Há pelo menos um apocalipse no horizonte: o da insegurança.

Segundo longa-metragem escrito e dirigido por Jeff Nichols (no mês passado ele levou seu terceiro trabalho, Mud, ao Festival de Cannes), O Abrigo tira seu título da solução encontrada por Curtis para sobreviver ao fim dos tempos. Pegando equipamento da construtora em que trabalha sem autorização, e desviando dinheiro da cirurgia que pode devolver a audição à filha pequena (o seguro não cobre a operação), ele começa a ampliar o abrigo subterrâneo contra furacões que já existe em seu quintal. Abre mais cômodos nele, puxa água e eletricidade, estoca suprimentos, põe camas e cobertores e demora-se horas ali todos os dias, como se estivesse habituando-se a uma nova casa. Mas, na interpretação de nuances magistrais de Michael Shannon, Curtis não tem o aspecto da loucura. É paciente, contido e obsessivamente equilibrado, se é que a contradição entre esses termos é aceitável: sua mãe desenvolveu esquizofrenia paranoide mais ou menos na idade em que ele está, e ele se vigia estreitamente a fim de verificar se o mesmo está se passando com ele. Em segredo, porque tem vergonha, procura ajuda psiquiátrica. Em casa, tenta ocultar da mulher (Jessica Chastain, em uma belíssima atuação) os suores noturnos, os pesadelos e a ansiedade. Mas a sensação de que suas visões são vaticínios, e não meras alucinações, é forte demais para que ele a ignore – e, logo, o abrigo será conspícuo demais para passar despercebido da mulher e do patrão. Aquilo que Curtis tenta evitar, enfim, é o que ele próprio vai precipitar.

Um cineasta com o dom inato para os elementos sinistros e ameaçadores que despontam na paisagem da normalidade e a distorcem, Nichols é também um mestre da ambigüidade. Se fosse possível a Curtis ou ao espectador decidir-se por uma explicação para suas visões, O Abrigo seria simplesmente um suspense psicológico, ou um filme-catástrofe, ou uma parábola sobre a recessão e a destruição que ela vem cavando na vida das pessoas chamadas comuns – ou ainda um belo drama doméstico, na autenticidade com que documenta a vida de Curtis e sua família. Mas é todas essas coisas, e nenhuma delas: graças ao desempenho superlativo de Shannon e a um roteiro que ardilosamente considera todas essas hipóteses ao mesmo tempo em que rejeita truques, trunfos e reviravoltas e nada esconde da platéia, a estranha história de Curtis é tão plausível que sua inquietação pouco a pouco se comunica, inteira, ao espectador. Seja qual for o prisma pelo qual se prefira interpretar os acontecimentos (e o final, espetacular, deixa muito espaço para a conjectura), o temor que eles deixam é simples – que um dia, como para Curtis, tudo que se dá como certo seja levado pelo furacão. 





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