Os Brutos Também Amam


GRANDES FILMES DA MINHA VIDA

 

Os brutos também amam (Shane )-de George Stevens – 1953)

 

Obs.: Um dos poucos filmes que o título no Brasil é mais conhecido como o hábil pistoleiro – SHANE

 

Um cinco(XXXXX) estrelas magnífico. Um Western, com os olhos grandes, de Brandon de Wilde, menino, admirando aquele cavaleiro solitário e desconhecido que chegou para fazer justiça. O duelo com Jack Palance, todo de preto, na lama, é único e grandioso. O final e um pouco decepcionante. Concordo plenamente com o ator José Wilker, que o adeus do mocinho (no caso o inespressivo   Alan Ladd) ao lugarejo e a família que o hospedou, não me deixou satisfeito (talvez o diretor pensou: chegou no vilarejo desconhecido e foi embora desconhecido, para outras paragens). A trilha sonora de Victor Young é inesquecível e memorável. Tudo funciona!

 

Conforme o livro O Filme de Faroeste:

EM SHANE OS BRUTOS NÃO AMAM

Os Brutos Também Amam (Shane, 1953), de George Stevens (1905-1975), alicerça-se sobre os arquétipos do gênero, principalmente linearidade e simplicidade da estória, mas, acrescidos, conforme ressaltado pelo crítico Antônio Moniz Viana, de dimensão psicológica e ritmo propositadamente lento.

Essa última característica não é, contudo, indispensável para instrumentalizar ou veicular o aspecto psíquico. Este pode ocorrer mesmo com desenvolvimento trepidante, como acontece em Matar ou Morrer (High Noon, 1952), de Fred Zinnemann. Todavia, tal como o curso nervoso deste, a lentidão rítmica também constitui componente comportamental em Shane, integrando o plot como um de seus elementos intrínsecos. Tanto que não é possível conceber tais filmes com diverso andamento.

Além disso, Shane tem como outro de seus atributos, a realização efetuada sob os signos da exigência e da meticulosa elaboração.

Esse tripé – densidade psicológica, cadência lenta e execução planejada e cuidadosa – que refoge à tradição do western, conduz o fio narrativo.

Da competente conjugação de tais fatores resulta obra harmoniosa, cinematograficamente equilibrada e esteticamente bela. As imagens fluem límpidas, mercê de estudada utilização dos recursos da sintaxe cinematográfica.

Sem dúvida, a preocupação com o planejamento e a ênfase nos efeitos – “neste filme, a trama é o que menos importa, e sim os efeitos” (Rui Castro, Folha de S.Paulo, 12 maio 1984) – sobrepõem-seà expansão de sentimentos e emoções. O corte psicológico concentra-se na revelação da personalidade e do caráter das personagens, não em possíveis e incontroláveis arroubos temperamentais. O primado da contenção e da depuração, é, no filme, abrangente, abarcando todos os pormenores. A proposta criativa não é documentar e refletir realística ou naturalisticamente determinado contexto, mas, apropriar-se de seus lineamentos e implicações gerais para construir obra artística. A verdade e a realidade confundem-se com e constituem a própria realização fílmica e o resultado obtido.

A crítica em decorrência dessa posição e a partir do valor e da importância que atribui a uma ou outra dessas particularidades, tem-se dividido frente ao filme, variando desde os maiores encômios (“Shane é uma das obras mais perfeitas que não só o gênero, mas o próprio cinema produziu”, afirma Moniz Viana, à época do lançamento no Rio, no Correio da Manhã), escolha, pela média da opinião de treze críticos, como o maior western de todos os tempos (Folha de S. Paulo, 12 maio 1984), exegeses favoráveis de Will Wright, em Sixgun in Society: A Structural Study of the Western, e de Paulo Perdigão, em Western Clássico: Gênese e Estrutura de Shane, ambos citados por Sérgio Augusto (“Perdigão, Um Minuncioso Exegeta de Shane”, Folha de S. Paulo, 4 maio 1985), até a demolidora opinião de Eugênio Bucci, de que “o grande clássico envelheceu e, acanhado, recende a piquenique no pasto” (Folha de S. Paulo, 12 dezembro 1990).

Como, à época, o nível do jornalismo cinematográfico era alto, ninguém, ao que se sabe, o detratou com epítetos de baixa ou nenhuma extração intelectual como certos comentaristas têm feito ultimamente quando se contrariam suas opiniões, tentando a depreciação do crítico em detrimento da discussão e análise da fundamentação de seu julgamento.

Já a notável performance dos atores em Shane demonstra, mais uma vez, que a boa interpretação deriva, basicamente, de competente direção e adequação dos papéis. Sendo esta, por sua vez, conseqüência daquela, visto que a direção só é eficaz se o é ab initio, ou seja, desde a escolha dos intérpretes e designação das respectivas atribuições.

Poucos filmes exemplificam, como esse, a assertativa. Dois atores, célebres pela canastrice, como Alan Ladd e Jack Palance, obtêm, aqui, talvez os melhores desempenhos de suas longas carreiras. Nem ocorre lembrança de outro filme em que o exagerado Van Heflin esteja tão moderado. É bem verdade que as expressões mais marcantes de Alan Ladd são apenas sugeridas, eis que apresentadas isoladamente na tela, enquadradas entre duas cenas, em prévia seleção expressional filmada independentemente do contexto e posteriormente encaixada e montada no momento apropriado. Como, aliás, também ocorre com o menino, cujo papel extrapola de feliz focalização da admiração infanto-juvenil por heróis para símbolo mesmo da aura legendária formada em torno dos protagonistas da saga aventurosa e colonizadora do oeste estadunidense.

Nesse filme, pois, toda a inexpressividade de Ladd, como os cacoetes e caretas verdadeiramente histriônicas de Palance e os esgares e quase estertores de Heflin, que tornam os dois primeiros os piores entre os atores conhecidos, é disfarçada no primeiro e literalmente eliminados nos demais em proveito de atuações contidas e comedidas, submetidas, como tudo o mais, aos assinalados planejamento e depuração.

Ressaltam-se, ainda, tanto a eficácia mercadológica do título brasileiro como sua impropriedade para exprimir a temática, já que os “brutos” no filme (o prepotente criador de gado, seus sequazes e o pistoleiro encarnado por Palance) não demonstram amor a ninguém e nem lhes é dada essa oportunidade pelo script. A prerrogativa é deferida apenas e justamente às personagens sensíveis, como Shane e Starlet, cujos atos violentos decorrem unicamente de imposição inafastável das circunstâncias.

 





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